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Obstipação Crónica
Atualizado: Nov 4
Obstipação – o que é?
A obstipação, mais vulgarmente conhecida como “prisão de ventre”, é uma condição muito comum, mas pouco mencionada como um problema nas consultas de rotina.

Considera-se o diagnóstico de Obstipação Crónica se, durante mais de 3 meses, o número de evacuações for inferior a 2 vezes / semana, acompanhadas de um grande esforço e dificuldade persistente, ou da utilização de manobras digitais para auxiliar a saída das fezes. Nestes casos, são frequentes fezes duras e fragmentadas, sensação de mal-estar na região abdominal e ingestão sistemática de medicamentos laxantes para que a evacuação ocorra de forma regular. Não existe um padrão de funcionamento intestinal igual para todos os indivíduos, embora se considere normal uma frequência de evacuações inferior a 3 vezes / dia e superior a 3 vezes / semana.
Estima-se que a obstipação atinja cerca de 12-19% da população, com maior prevalência após os 65 anos, não justificada pelo processo de envelhecimento, mas por patologias secundárias mais frequentes na população idosa.
A Obstipação Crónica pode piorar comorbilidades como a dor lombar, alterações da tonicidade muscular em pessoas com patologias neurológicas, exacerbação de patologias do trato urogenital…, sendo de extrema importância o seu tratamento.
Obstipação – quais as suas causas?
As fezes são constituídas pelos alimentos não assimilados durante o processo digestivo, maioritariamente fibras, que quando armazenadas no cólon vão perdendo água e eletrólitos, o que dificultará a sua evacuação. Os alimentos ingeridos demoram cerca de 1 a 3 dias a percorrer o trato digestivo e cerca de 90% desse tempo é passado nos intestinos. Quanto maior for a duração do “trânsito intestinal”, menor será o teor de água das fezes, e consequentemente, maior a dificuldade na sua evacuação.
As causas mais graves da obstipação podem dever-se a determinadas patologias que afetem secundariamente o intestino, tais como:
Doenças do foro neurológico (Esclerose Múltipla, Parkinson, Acidentes Vasculares Cerebrais, Lesões Medulares);
Doenças metabólicas (Diabetes, Hipotiroidismo, Insuficiência Renal);
Doenças próprias do intestino ou ânus (doenças inflamatórias, estenoses, tumores fissuras anais, etc.);
Disfunções da musculatura do Pavimento Pélvico (hipertonia ou hipotonia muscular).
Nos casos de obstipação transitória (que acontece com a maioria das pessoas em qualquer fase da vida), a etiologia é multifatorial, podendo relacionar-se com:
Alterações na alimentação (dietas pobres em fibras e líquidos);
Sedentarismo ou diminuição na prática de exercício físico;
Falta de resposta ao desejo de defecar (adiar repetidamente a vontade de evacuar pode levar à perda do reflexo normal de eliminação das fezes);
Mudanças nas rotinas diárias (viagens e estadias fora dos ambientes habituais);
Gravidez e parto (crescimento uterino, alterações hormonais, a suplementação de ferro, parto instrumentalizado);
Cirurgias (especialmente abdominais e anorretais).
A obstipação pode ainda relacionar-se com a ingestão de certos medicamentos, ou simplesmente, com um intestino lento e com dificuldade em desencadear a saída das fezes, sem causa identificável.
O diagnóstico é facilmente constatado a partir de uma anamnese detalhada e um exame médico de rotina. Nos casos mais graves poderá haver necessidade de exames mais detalhados tais como: hemograma, clister opaco, colonoscopia, medição da duração do trânsito cólico, defecografia ou manometria ano-retal.
Obstipação – como prevenir e tratar?
1- Disciplinar a alimentação

A análise dos hábitos alimentares é imprescindível na primeira fase de tratamento da obstipação. Na maioria dos casos, o alívio dos sintomas consegue-se com pequenas alterações dieta, aumentando a ingestão de alimentos ricos em fibra – gradualmente de forma a evitar a acumulação de gases abdominais, e assegurando a ingestão suficiente de líquidos. Segundo a American Dietetic Association, a média diária de ingestão de fibras recomendada para os adultos é de 30 gramas, pelo que a inclusão de legumes, frutas com casca e cereais, é imprescindível para a prevenção de patologias do trato digestivo. A evitar o consumo de alimentos processados que atrasam o esvaziamento intestinal devido ao elevador teor de gordura.
2- Estabelecer uma rotina
Começar o dia com a ingestão de bebidas quentes pode ser benéfico para estimular o reflexo gastrocólico, desencadeado pela distensão do estomago quando são ingeridos alimentos. Este reflexo estimula a motilidade do intestino, e consequentemente, o deslizar das fezes para a ampola retal. Nesta altura, é sentido o desejo de evacuar que dura cerca de 3 minutos, e que deve ser prontamente atendido. Estabelecer uma rotina de evacuação matinal durante 15 a 20 minutos, após o pequeno almoço, e respeitando as posturas adequadas, pode facilitar o processo.
3- Adotar uma boa postura defecatória
Evacuar com esforço eleva a pressão abdominal e coloca em tensão os tecidos do pavimento pélvico. A manutenção de evacuações difíceis e prolongadas, aumenta a probabilidade de ocorrência de hemorroidas, prolapso dos órgãos pélvicos e veias varicosas vaginais. A postura defecatória ideal deve facilitar o relaxamento da musculatura pélvica, nomeadamente do músculo puborretal ( na figura a envolver a porção distal do intestino), para que o posicionamento mais alinhado permita a passagem das fezes sem restrições.

4- Massajar a região abdominal
Apesar das fracas evidências científicas dos benefícios da massagem no controlo sintomático da obstipação, alguns estudos demonstraram que pode ser útil na estimulação dos movimentos peristálticos e na diminuição da duração do trânsito no intestino. Assim, uma automassagem abdominal de pressão leve, em movimentos circulares (no sentido dos ponteiros do relógio) percorrendo o cólon, pode aliviar o desconforto e a dor.
5- Praticar exercício físico
A atividade física regular é especialmente benéfica nos casos de obstipação. Realizar caminhadas diárias, andar de bicicleta, fazer ginástica ou natação podem ajudar a regular o transito intestinal e a facilitar a defecação. Também as modalidades mais calmas como o yoga ou a meditação são aconselhadas, pois permitem reduzir os níveis de stress e facilitam o relaxamento.
6- Elaborar um Diário Intestinal

Registar o número de evacuações diárias, o maior ou menor esforço envolvido na defecação e a consistência das fezes pode facilitar o diagnóstico e tratamento da obstipação. Para isso, poderá ser utilizada uma escala simples de classificação, denominada Escala de Fezes de Bristol. Na escala da figura (adaptada de Management of Chronic Constipatio in The Elderly) estão representados os vários tipos de fezes que podem ser evacuados, e assinalam-se os Tipo 3 e 4, como os que devem ser mantidos para uma defecação mais regular e facilitada .
7- Evitar a automedicação
Nos casos de obstipação crónica pode ser necessária a prescrição de medicação específica pelo médico. É crucial que se evite a medicação sem aconselhamento médico prévio. Tal como em qualquer outra patologia, a ingestão de substâncias químicas laxantes deve ser controlada devido aos seus efeitos secundários adversos.
Sinais de alerta
É extremamente importante contatar o médico sempre que surgirem perdas de sangue nas fezes, suspeitas de anemia, perda de peso súbita e não intencional, obstipação repentina ou agravada sem causa aparente e aumento da sintomatologia durante a noite. Aconselha-se ainda a realização periódica de exames de rotina, nos casos que apresentem um historial clínico de doenças intestinais na familia.
A importância de um intestino saudável tem vindo a ser referida em diversos estudos ao longo dos últimos tempos. São várias as pesquisas que enfatizam a autonomia do intestino em termos funcionais, apelidando-o de 2º cérebro. De salientar, que 70% das células do nosso sistema imunológico localizam-se no intestino pelo que, a existência de problemas intestinais aumenta a vulnerabilidade do organismo às doenças comuns. Uma alimentação diversificada melhora o microbioma intestinal e a saúde em geral.
BIBLIOGRAFIA
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Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia - www.spg.pt